Cuba

Cuba não estava no nosso roteiro, decidimos ir a Cuba quando estávamos na Colômbia. Reservamos 2 quartos na casa de uma família cubana, onde amigos de amigos haviam se hospedado, na intenção de viver mais intensamente a experiência nesse país. Cheios de expectativas desembarcamos em ‘La Habana’.

Aeroporto simples e antigo, processo aduaneiro costumeiro, mas diferente de outros países, alguns profissionais ao saberem que somos brasileiros já começam a falar de futebol, novelas e a brincar com as crianças, o que nos deixou bastante relaxados.
Ao sair no saguão procuramos por Aldo, um dos componentes da família que nos hospedaria. Quando reservamos os quartos via whatssap e ele me perguntou se queríamos que fosse nos buscar, achei ótima a disponibilidade e aceitei. Lá estava ele nos aguardando, simpaticíssimo, apesar de estar lá há mais de uma hora, pois os processos aduaneiros e de entrega de bagagem foram bastante demorados. Nos apresentamos, fomos trocar nossos pesos mexicanos por CUC’s (Pesos Cubanos usados pelos estrangeiros) e já vimos os muitos carros chamados por eles de “modernos” na parte de fora do aeroporto. Aldo nos avisou que deveríamos pegar um táxi, o que me surpreendeu, pois se ele havia ido nos buscar imaginei que fosse de carro, mas não, ele foi para nos auxiliar a chegar em sua casa. Ele e nem ninguém da sua família tem carro. – Ter carro em Cuba é para poucos.
A família de Aldo é composta por Sr. Pablo, seu pai e chefe de enfermagem, Marina, sua mãe, hoje administradora dos quartos de locação em sua casa, mas em outras épocas auditora do Estado e antes diretora financeira de uma fábrica da tabacos (charutos ou habaneros como chamam aqui), ele Aldo artista plástico e Pablo, seu irmão mais novo, estudante de enfermagem. Moram em uma casa grande, que toma o segundo e terceiro andar de uma construção antiga, no centro de Havana e lá prepararam 3 suítes com ar condicionado para alugar à visitantes.  Tudo com a autorização e fiscalização do Estado.
No caminho entre o aeroporto e a nossa nova hospedagem, olhávamos tudo com o olhar de quem quer descobrir o que se esconde nessa ‘grande ilha’, e nos deparamos com o grande ícone que são os carros da década de 50 (hoje rodam junto com poucos carros novos). São muitos rodando como táxis, com os mais variados estados de conservação, alguns lindos e impecáveis e outros que não se sabe como as portas se mantém presas a carroceria, esses menos conservados em sua maioria servem de táxis comunitários para os cubanos e são chamados de ‘máquinas’. Foi difícil descobrir o que era “tomar uma máquina na calle”. Em nosso trajeto somente propaganda do Estado, com fotos do Fidel e Che, além de frases de efeito, trazendo temas sobre a revolução e enfatizando o regime e sua continuidade através da unidade. A publicidade é toda do governo, aqui chamado de Estado, e os meios de comunicação também, que o governo usa para enfatizar o regime adotado e reverberar em todos o sentimento de continuidade.

Foi uma surpresa as grandes diferenças que encontramos em Cuba, mais do que nunca a frase: “Viajar é descobrir o que sabemos de errado sobre outros países” foi tão assertiva, pois a Cuba que descobrimos hoje está em transição e pudemos vivenciar essa transformação de maneira muito íntima, vou tentar separar alguns tópicos dessas “Cubas” que encontramos:

A Cuba dos anos 50
Essa Cuba está muito presente no bairro em que nos hospedamos (centro de Havana), as casas são todas dessa época e os poucos carros em sua maioria também, as ruas são repletas de pessoas, na maioria cubanos, apesar de nos últimos 2 anos haver uma invasão de turistas, que até surpreende a população local. Nessa Cuba, existe um “livrete de comida”, onde o Estado estipula a quantidade e quais produtos serão consumidos pela população. As ‘tiendas’ (lojas/comércio) são responsáveis por distribuir esses produtos de forma gratuita e marcar no livrete. Nosso guia e chofer Yudenes, que nos levou e nos acompanhou por 2 dias nas cidades Viñares e Varadero, tem um filho de 8 anos e nos relatou que o Estado fornece leite as famílias com crianças de até 7 anos e carne à crianças de até 8 anos, depois destas idades se quiser estes alimentos, é necessário comprar.
Detalhe – Sr Pablo como chefe de enfermagem ganha mensalmente cerca de USD 45,00, como ele mesmo nos relatou, dá para comprar por mês um par de sapatos novos ou 3 peças grandes de carne para toda a família….

As “tiendas” são uma história a parte, com produtos muito escassos, tanto em quantidade quanto em variedade, tem um atendimento horrível e com cuidados higiênicos nulos. As carnes e embutidos ficam cortados sobre o balcão, o atendente pega com a mão, pesa sobre a balança direto no prato e com a mão lhe entrega para que você coloque onde melhor lhe convier, sem qualquer papel ou saco plástico, chega a ser cômico de tão trágico. Existem os produtos “normados” (com preço tabelado) e os “livres“ (não tabelados), os segundos tem mais qualidade, mas não passam dos insumos básicos, não se consegue comprar o necessário na mesma tienda, em uma há pão, em outra algum produto de higiene, em nenhuma qualquer suco, em outra manteiga, na mesma produtos de limpeza e algum material construção, enfim, é uma aventura querer utilizar esse comércio para se abastecer de qualquer coisa.

A Cuba turística
Essa Cuba é impressionante, agora os carros não são velhos e sim antigos, tem os “descapotados” (conversíveis), todos impecáveis e ao custo de 50,00 CUC’s a hora do passeio pela cidade (equivalente a 50,00 dólares), o movimento da rua agora é de agentes de turismo oferecendo tours, passeios de descapotados, táxis, hotéis, restaurantes, charretes, etc…, uma quantidade incontável de bares e restaurantes, com qualidade e preços variados, uma região delimitada para turistas, onde não há qualquer tipo de impedimento físico para acesso, mas há um impedimento financeiro que mantém os cubanos longe dessa região, os valores praticados estão muito, muito distante da realidade da grande maioria deles. Mas o mais impactante é um hotel luxuosíssimo no centro da cidade que abriga no seu térreo um centro comercial com lojas da Mont Blanc, Versage, Lacoste, loja de jóias, perfumes, equipamentos fotográficos, todos os produtos com valores nada competitivos para o público (turistas), que tem em seus países esses mesmos produtos por preços muito mais baixos e valores nada condizentes com a realidade local (cubanos). Estamos ainda querendo saber qual é a estratégia dessas empresas, conversamos com muitas pessoas, mas não conseguimos entender ainda.

A região de Varadero, com suas praias lindíssimas, é outro local onde os cubanos, em geral, ficam longe. Com resorts “all inclusive”, praias particulares e preços para turistas abonados, não possibilitam que a maioria dos cubanos possam frequentar esse local.

A Cuba da revolução socialista
Essa Cuba vimos muito presente no desfile de 1 de Maio, onde o presidente discursou e algumas centenas de pessoas desfilaram, com suas insígnias, bandeiras, cartazes, pinturas e tudo mais que trouxesse ênfase a revolução, Fidel, Che e Raul. O protesto ao imperialismo, ao bloqueio comercial norte americano que o Estado chama de – ‘O mais longo genocídio da história’. E que também está presente na publicidade das ruas. Visitamos o Museu da Revolução, onde os revolucionários, Che, Fidel e Camilo são exaltados como salvadores do país, e todo o museu é sobre como eles transformaram Cuba com a revolução socialista. Na casa onde nos hospedamos tive a oportunidade de ler um livro sobre a história de Cuba, destinado a estudantes que vão prestar vestibular, e a todo o momento, o decorrer da história é pautado com uma frase de Fidel evidenciando o regime, a necessidade da união e a perpetuação da revolução.

A revolução não me parece ter mais nenhum sentido, nem mesmo para continuar se chamando revolução, mas não vou me aprofundar nessa questão, que é tão polêmica.

A Cuba nostálgica
Essa Cuba que mais nos agradou, e que está representada em Havana Vieja, com seus casarios um pouco mais cuidados, ruas estreitas, museus, restaurantes acolhedores, apresentações musicais (fomos assistir Buena Vista Social Club), uma grande diversidade cultural. Essa Cuba é charmosa, onde os habaneros, o run, a salsa e a rumba estão muito presentes.

A Cuba patriota
Independente se mais ou menos adeptos a ideologia do Estado, o que percebemos é que todos tem muito orgulho de seu país, querem que a abertura comercial seja cada vez maior, mas não vimos, ao menos com quem falamos (e falamos com bastante gente), o desejo de sair do país para morar fora, mas sim o desejo de que mais oportunidades venham para que tenham uma melhor condição de vida. Existe amor pelo país, orgulho de ser cubano.

* Claro que isso não é uma unanimidade, muitos jovens querem sim deixar o país e viver o sonho americano, mas não nos pareceu a maioria.

A Cuba americanizada
Acredito que quando evidenciamos algo nos outros, sejam características negativas ou virtudes, certamente reconhecemos algo disso em nós, e em Cuba isso também se reflete. Há um grande discurso por parte do Estado contra o imperialismo ianque, mas a juventude cubana traz muito da cultura norte americana, no esporte como beisebol e basquete, na maneira de vestir e na musica, vimos clips de jovens cantores cubanos, que não só são réplicas de estilo americano com ritmo caribenho, mas foram produzidos nos Estados Unidos, em muitos lugares, como táxis, casa e roupas eles trazem a bandeira norte americana.

A Cuba cordial
É impressionante com o povo é educado, solicito e bem humorado. Claro que eles olham os turistas e percebem oportunidades, mas estão sempre disponíveis a darem informações, são sorridentes, educados e interessados. Querem conversar, falar, contar e perguntar. Nos sentimos acolhidos e o que mais nos impressionou, pelo menos com as pessoas com que convivemos mais de perto, foi o fato de não terem nenhuma revolta com a condição limitante de recursos que tem disponíveis, colocam os fatos sem paixão, é assim e pronto…..

Certamente a Cuba que conhecemos hoje é bastante diferente da Cuba de 2 anos atrás e muito, muito diferente da Cuba de 5 anos atrás. Na velocidade em que está mudando, certamente nos próximos 10 anos não se verá algumas das “Cubas” acima descritas.

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Caio, Marina (nossa host) e Sofia na despedida

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